quinta-feira, novembro 14, 2013

Madrasta? Não, arranja aí outro nome para nós!



Filhote:
Escrevo sem saber se te darei estas palavras para ler ou não... se calhar sim... Bolas, já fazes 13 anos, já não és nenhum bébé,  e há coisas que têm de ser ditas, por isso aqui vai.

Não sei se deste conta, mas tivémos momentos complicados. Isto de não ser tua mãe, ter as mesmas obrigações (ou mais) de mãe, mas sem os privilégios de mãe, não é nada fácil de gerir.

No início, pensei sinceramente que bastava seres filho da pessoa que eu amo, para eu gostar de ti automaticamente e ser tudo um mar de rosas. Wrong! Não é assim que funciona, e desengane-se quem pensa assim, ou está iludido que assim venha a ser. Foi difícil, mas creio que estes seis anos me permitiram, finalmente, perceber o meu papel nesta família.

Não quero ser tua mãe, não só porque, graças a deus, ainda tens a tua mãe verdadeira, e eu própria já tenho uma filha, mas principalmente porque não tenho de te amar como uma mãe. Não está escrito em lado nenhum que eu tenha de te amar como mãe. Se queres que te diga, nem sei que amor é este. Sei que te amo do meu jeito, sei que te amo porque quero e não porque é o que de mim é esperado! Sei que não é amor de mãe, nem de tia.... e não, não lhe quero chamar amor de madrasta, nem penses. Isso faz-me logo lembrar a bruxa má da Branca de Neve e eu sempre a detestei.

Para além disso, “madrasta” é uma palavra feia, tem uma fonética horrível, demasiado estridente com aquele “a” todo aberto, muito agressivo! Não, não é nada disso. É algo mais quente e meigo. É algo que me permite chamar-te filhote com imenso carinho e vontade, (excepto quando estou danada contigo). Só não consegui ainda arranjar-lhe um nome. Talvez tu possas ajudar-me a apelidá-lo ou a dar-lhe um nickname só nosso. Quando pensares nisso, pensa em alguém que te quer bem, muito bem, e que todos os dias acredita que tu vais ser um ser humano fantástico, bondoso, um verdadeiro gentleman.

Com esta lamechice toda, não penses que tás safo de ralhetes e puxões de orelhas, só porque fazes anos hoje. Continuas a tirar-me do sério com os teus esquecimentos, com as tuas infantilidades, com as tuas deambulações que chegam a roçar a irresponsabilidade, esse teu estilo “tou nem aí, e tá tudo cool” . Às vezes não há pachorra! Mas não faz mal, já deixei de me sentir mal com isso. Já deixei de me sentir mal por algumas vezes me apetecer dar-te uma lambada.  

Não gosto que me vires do avesso, mas gosto que sejas o meu compincha do sushi, gosto de te fazer bitoque com ovo a cavalo (o teu prato favorito) ou qualquer outra comida que eu sei que vais devorar. Gosto de saber que tiraste uma boa nota num teste para o qual estudámos em conjunto. Gosto quando ouves uma música na rádio e me perguntas o título da canção e quem a canta (aqui que ninguém nos ouve, tu sabes que não podes contar com o pai para isso). Gosto quando me perguntas o significado de coisas em inglês. Gosto que contes comigo!

Gostava que viesses ter comigo quando te apaixonasses pela primeira vez, o que já devo ter perdido, pois com certeza já aconteceu.

Gostava que contasses com a tua “irmã” para partilhar aqueles sentimentos que temos a fervilhar dentro do peito, mas que temos vergonha de contar aos pais. É para isso que servem os irmãos! Acredita em mim, eu tenho três! Por vezes, adoraria poder voltar atrás no tempo e reviver aquela cumplicidade que tínhamos na adolescência.

Gostava que compreendesses mais o teu pai, e que percebesses que ele luta tanto, todos os dias, para não te faltar com nada, e que é por isso que ele é tão exigente contigo. É esse o papel dele, e tens de reconhecer que ele tem sido Pai, com letra grande. Ele tem sido enorme, não pelo seu 1,89m, mas porque não há nada que ele não faça por ti. E, atenção que eu não disse “não há nada que ele não fizesse por ti”.

Acredito que, por muito que vás à bola comigo, gostarias de ter a mãe e o pai juntos, mas quando fores grande vais perceber que há relações amorosas impossíveis. Onde no início havia amor, penetram a raiva e o rancor de uma tal forma, que não há retorno. Espero que nunca tenhas de passar por isso, mas se te acontecer, não é o fim do mundo. Há-de aparecer-te, mais cedo ou mais tarde, um anjo caído do céu.

Que sejas muito feliz hoje, que fazes 13 anos, e sempre. E que eu tenha o prazer de te ver amadurecer.
Love you





terça-feira, novembro 12, 2013

Guilty Pleasures


Ando há uns dias a evitar vir ao blog, a fugir com o rabo à seringa, às voltas sem saber como abordar o tema sem vos chocar.
Virei-me para o tricot! Pronto, já está.... É o meu novo Guilty Pleasure, mas a culpa não foi minha, a culpa é da pré-adolescente lá de casa que, mal acaba de estudar, me inferniza o juízo queixando-se que não tem nada para fazer, usando esse argumento como desculpa para ficar a viciar no telemóvel e no tablet.
Um dia destes, depois de lhe sugerir ler um livro, ver um filme, ir dar uns toques na guitarra, whatever e a resposta ser “não me apetece fazer nada disso”,  disse-lhe como quem não quer a coisa e em desespero, “se quiseres posso ensinar-te a fazer tricot. Quando tinha a tua idade a tua avó ensinou-me, e ainda fiz umas coisas engraçadas”.
E não é que a miúda achou piada à ideia?  
No dia seguinte, fui a casa da minha mãe procurar agulhas e restos de novelo para a pequena.
Qual não é o meu espanto quando encontro um cachecol, a minha obra de arte iniciada há mais de ..... wtf....20 anos, e ainda inacabada, qual capela da Sagrada Família. Que desperdício!  Era agora ou nunca. Decidi terminá-lo!
Entreguei-me de tal forma, que dou comigo a desejar o final do dia para voltar ao meu projecto.  Os três livros que andava a ler congelaram em cima da mesa de cabeceira, e já nem me lembro em que canais da box são os TV Cines.
Este fim-de-semana, por exemplo, só parei para comer, dormir, fazer aquilo que ninguém pode fazer por nós (sim, as princesas também o fazem) e obviamente para ver os meus papoilas saltitantes pelos campos a vibrar e a dar 4-3 às lagartixas.
Já terminei a minha Sagrada Família, vou a meio duma réplica do Taj Mahal, e já tou de olhos postos numa espécie de Muralha da China. 
Cá está:



Eh pá, é que esta cena é extremamente relaxante, muitas vezes dou por mim estou a viajar na maionese. 
E depois, é tipo Tampax, dá para fazer “quase tudo” : ouvir o último podcast do “Tubo de Ensaio”, ligar o YouTube e relembrar a actuação dos U2 no Live Aid de 1985, “ver” televisão, etc.

Ok, confesso que voltei a colocar o último álbum dos Moonspell no leitor de CD do carro. Não vá o diabo tecê-las e eu começar a convidar o pessoal para ir lá a casa tomar o chá das 5h ou para alguma reunião de tupperware. Se me virem chegar a esse ponto, tirem-me do vício, ok? 
Ah sim, e a "piquena" lá começou o seu 1º cachecol. A ver se não demora 20 anos....

quinta-feira, outubro 17, 2013

Os amigos queixinhas e as frases feitas



Não tenho muita paciência para aqueles perfis de facebook dos amigos que se entretêm horas a fio de volta de um jogo, e que ainda por cima passam a vida a convidar-nos para o mesmo!

Mas o que me tira mesmo do sério são aqueles perfis carregadinhos de malditas frases feitas, os recadinhos e as bocas dirigidas aos "falsos" amigos, as mensagens que dão a entender que estão magoados com alguém, e/ou que são invejados por tudo e por todos.

Frases-tipo tiradas de sites ou páginas brasileiras, muito agradecidas a Deus por tudo de bom que Ele lhes tem trazido na vida, mas que no fundo se resumem a isto:

 “Algumas pessoas são tão falsas que deveriam ter atrás do pescoço uma tatuagem escrita: “made in china”. E o que dirias se fosses efectivamente chinês?

“A maioria dos problemas do mundo acabariam se conversássemos mais uns com os outros, em vez de uns dos outros”. Que bonito, já pensaste em praticar aquilo que dizes?

“triste mesmo, são as pessoas que precisam criticar e encontrar defeitos nos outros para se sentirem um pouco melhor” – Já te sentes melhor?

“morrias de vertigens se chegasses ao meu nível”. Vê lá não caias...

“ você já reparou que quanto mais feliz você é, mais você incomoda?” Os meus amigos costumam ficar felizes por mim, a quem incomoda não sei, não estou lá para ver!

“aviso prás cobras: é com seu veneno, que eu preparo meu antídoto” Esta é muito boa, é a versão intelectual e literária do queixume, com recurso a figuras de estilo e tudo!

“pessoas falsas e sem caracter não me derrubam, tornam-me mais forte”. Deves estar gordo/a que nem um texugo!

“se falam de mim pelas costas é sinal que a minha vida é bem mais interessante que a delas!” ah, e tu ao publicar isto, tás a falar bem?

“não desejo mal a ninguém, mas na próxima vida certas pessoas deviam reencarnar em papel higiénico”. -  Se isto não é desejar mal a ninguém, não sei o que será... talvez desejar que reencarnem em sanita.

And so on and so forth...

Primeiro que tudo gostaria que me esclarecesses uma dúvida? Essas pessoas são tuas amigas no facebook?  Ou seja, a intenção é mandar recados/bocas para essas pessoas?
-Sim? Ah, boa! Então o que é que elas estão a fazer no teu grupo de amigos?
-Não? Essas pessoas não vão ver o que escreves? Então dá para parar de mortificar quem não tem nada a ver com o assunto.

Segundo -  Colocar posts destes é fazer o quê, dizer bem? Que tal confrontares a pessoa directamente? Que tal dizeres o que te vai na alma?

Terceiro - Não te cabe a ti educar nem mudar ninguém, a não ser que alguma entidade superior te tenha nomeado para esse cargo. Seja como for, eles não vão mudar porque colocaste no teu mural a bela da frase feita.

Quarto- tu também não és perfeito, e com certeza já magoaste alguém, mesmo que não te lembres disso ou tenhas tido noção que o fizeste.

Quinto-  sofrer de desilusões de amor/amizade não é um exclusivo teu. Toda a gente passa por isso. Faz parte do crescimento. Para além disso, faças o que fizeres, vai sempre haver alguém que tu não suportas e que não te suporta a ti. Deal with it!

Em resumo:
Os teus posts demonstram o contrário do que apregoas, e a tua atitude só revela uma grande falta de auto-estima. Se o que os outros pensam realmente não te interessasse, não estarias a invadir o facebook com esses recados da treta, nem a bombeardar com sabedorias de vão-de-escada arrematadas com o pseudo-virtuosismo do eu sou superior a tudo isso.  

Se, mesmo depois deste puxão de orelhas, as tuas tendências se mantiverem, sugiro que no próximo post de queixinhas identifiques a pessoa/as a quem te referes.

O que é que achas? É de tomates, hein? Das duas uma: ou a pessoa te pede desculpa e fazem as pazes, ou a pessoa fica ofendida, nunca mais te fala e tu livras-te de um peso monstrengo. Tem tudo para dar certo, ou não?!

Para finalizar e colorir de sons o que aqui foi dito, deixo-te esta grande malha de Paul and Linda McCartney, também imortalizada pelos Guns N Roses. Podes pôr o volume mais alto! Mais, mais, mais um bocadinho.... tá bom! Dá-lhe!




quinta-feira, outubro 03, 2013

Carta Maternal a Miley Cyrus



Exma Srª. Dona Myley Cyrus:

Agora que passaste de doce Hannah Montana a bomba sexual pervertida, diz-me o que é que eu digo à minha filha! Diz-me !

A miúda idolatra-te, pá! E agora? O que é que uma mãe faz? Digo-lhe que não faz mal aparecer toda nua no Youtube a lamber martelos?

Digo-lhe que, de repente, não vales nada? Tu que até tens uma boa voz, que escreves as tuas letras,  compões as tuas músicas, e que tens um estilo só teu!

Para quê esta cena da lingua sempre de fora? Algum tique nervoso? Para mostrares ao mundo o quanto estás crescida? Há maneiras mais inteligentes de o fazer, o teu pai não te ensinou isso?

Tinhas de vir estragar tudo!


quinta-feira, setembro 26, 2013

Diz que a adolescência dura até aos 25 anos

Li esta manhã no jornal Expresso que certos psicólogos ingleses são a favor da idade da adolescência ser ampliada até aos 25 anos.

No início achei um perfeito disparate, mas comparando a geração dos meus pais com a minha geração, ou com a geração actual.... a verdade está à vista.

O meu pai, homem do norte, filho de pessoas do campo, com apenas a 4ª classe, mas com uma enorme visão e ambição, veio para Lisboa sozinho, com apenas 18 anos, com uma mão à frente e outra atrás, à procura de trabalho.

Casado e com uma filha com cerca de um ano, o meu pai arregaçou as mangas e imigrou para os "states" na expectativa de uma vida melhor. Com muito trabalho, uma estrelinha no céu e uma esposa fantástica que o acompanhou (concordando ou não) em todas as decisões, “vingou” na vida tornando-se no empresário da construção e hotelaria que é hoje.

Ora, de mim e dos meus irmãos não se pode dizer o mesmo! Shame on me! Cresci numa vivenda de dois pisos, com jardim e parque infantil. Toda a minha vida frequentei colégios privados, tive acesso a actividades extracurriculares de inglês, francês e de música (na altura estava-me a borrifar para as aulas de órgão e solfejo, se arrependimento matasse...), comprava roupa nova todas as estações, quando tirei a carta tive direito a carro, quando casei tive direito a casa, quando acabei a faculdade tive direito a emprego.

E se grandes são as diferenças entre estas duas gerações, são absolutamente abismais relativamente à pré-adolescente que tenho lá em casa. Aquela para quem ainda ontem dei 120€ por dois bilhetes para o concerto dos One Direction, dia 13 de Julho, no PORTO (anda uma mãe a introduzir Pink Floyd, Dire Straits e até Moonspell nos gostos musicais da miúda e sai-me isto!). Os meus pais nunca foram comigo a um concerto, quanto mais fazer 300km para ir ver os meus ídolos. Ele é preço dos bilhetes, ele é portagens, combustível, dormida no Porto...

Talvez por tudo isto os tais psicólogos ingleses acreditem que o melhor é adiar a maturidade dos 18 para os 25 anos. Esta geração de miúdos não está preparada para abdicar das suas mordomias electrónicas, quanto mais!

Alguém sabe em que faculdade é que se tira a licenciatura de “Mãe” ?

terça-feira, setembro 17, 2013

“O Mordomo” ou a verdadeira aula de história



Para quem não viu, pare imediatamente de ler este texto e vá ver! Ontem já era tarde!
Dizem as más línguas, que até o Obama chorou!


Para quem viu, mas não se deu ao trabalho de investigar:
Não, Cecil Gaines não é o verdadeiro nome do tal mordomo que serviu oito presidentes americanos, de Harry S. Truman a Ronald Reagan.

O verdadeiro mordomo é Eugene Allen.

Eugene esteve casado durante 65 anos com Helene, mas não teve dois filhos, teve apenas um, de seu nome Charles, o qual não era nenhum activista dos direitos civis ou membro dos Black Panther, ou sequer lutou pelo seu país na guerra do Vietname.

São várias as diferenças entre a realidade e a ficção. O filme é apenas baseado em factos verídicos. “So what”? O filme não está colado à vida de Eugene Allen e o enredo é em grande parte ficção, porque se pretende algo mais do que o simples retrato da vida de um mordomo (ainda que não um mordomo qualquer). Se querem um filme alegadamente biográfico, vejam o novo filme sobre a princesa do povo, “Diana” de Oliver Hirschbiegel.

Os efeitos dramáticos (e um dos motivos por que adoro ficção) favorecem um objectivo maior, o objectivo didáctico: o de relembrar ao mundo o longo e tortuoso caminho que os negros da América atravessaram até ao aparecimento da Lei dos Direitos Civis em 1965. O filme relembra o Bloody Sunday, o KKK, as leis Jim Crow e a segregação, relembra a luta de Martin Luther King, relembra que apesar de a América se achar a balança do mundo também teve os seus próprios campos de concentração durante mais de 200 anos.

Mais, fica no ar que, apesar das conquistas de direitos e liberdades por partes dos afro-americanos, apesar da eleição de Barack Obama, muito ainda há a fazer por esse mundo fora.

A posição de Eugene Allen dentro da Casa Branca, convivendo de perto com oito presidentes norte-americanos, assistindo de perto a alguns dos maiores eventos na história da América, é apenas o apetrecho escolhido para uma das melhores apresentações do tema Direitos Civis/Direitos Humanos alguma vez feitas no cinema.

Vi o “Mordomo” um dia depois de rever pela enésima vez o “Uma Questão de Honra” , aquele dos 80´s, protagonizado por Tom Cruise e Jack Nicholson (ainda hoje estremeço com o “you can´t handle the truth”), e confesso que continuo a ter uma certa dificuldade em lidar com esta história da subserviência. Esta coisa de servir os desejos ou ordens de outrem, “no questions asked”, sempre me fez confusão.

Até nisso Lee Daniels se sai bem, apesar do "põe um sorriso no olhar dos teus senhores". Lee Daniels faz de Cecil Gaines um herói, tímido, mas mesmo assim um herói. Pelas palavras de Martin L. King ( protagonizado no filme por Nelson Ellis) nasce a convicção de que Cecil não é um subserviente, mas um agente de subversão, alguém que, pelo gosto e orgulho naquilo que faz e porque o faz melhor do que ninguém, subverte e revoluciona mentalidades e os preconceitos de que os negros são seres inferiores.

Cecil é a prova de que o acto de servir outra pessoa pode ser um prazer. Um prazer nos rituais, nas formalidades, no rigor, no compasso. Um prazer pela perfeição de bem servir. Ou como diria Martin Luther King, himself, “not everybody can be famous, but everybody can be great, because greatness is determined by service”.

Vi “o Mordomo” na companhia de uma pré-adolescente curiosa que me encheu de perguntas o filme inteiro, porque para o seu mundo todo aquele drama, aquela injustiça, a coragem e a bravura eram novidade. Saiu da sala de cinema mais informada, mais atenta em relação ao racismo e, espero eu, menos injusta em relação a todo e qualquer ser humano. Para ela, que detesta a disciplina de história, esta foi com certeza uma das melhores aulas que já teve.


quinta-feira, setembro 05, 2013

“Querem Matar o Colégio Militar"



Credo! Matar?! Quem? Como? Porquê?
A 1ª vez que vi o anúncio promovido pela Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, confesso que pensei “lá está o Coelho outra vez nos cortes”. Quis crer que o corte na despesa era necessário, tal como na MAC, e independentemente de estar de acordo ou não. Como sou teimosa que nem uma porta e detesto morrer na ignorância, investiguei o tema mais a fundo. 
Afinal, ninguém quer matar ninguém! Ufa, que alívio. Afinal o que se pretende é fundir o Colégio Militar com o Instituto de Odivelas, e permitir que o Colégio se torne numa instituição de internato mista.

Visto ser um tema com o qual não estou intimamente familiarizada (pois nunca frequentei qualquer instituição militar) tentei conhecer as várias versões, os vários pontos de vista e quais os argumentos pró e contra.

A posição da referida associação, pelas palavras do Sr. Presidente da associação, António Reffóios, é tão somente que não se desvirtue o modelo de ensino que dura há mais de 210 anos (whatever that means). Mais, não exclui a possibilidade de aulas mistas, mas nunca o internato dentro do mesmo campus, ou seja, o que se receia são as cowboiadas nocturnas. Salienta o sr. presidente que o facto de as Forças Armadas serem mistas, hoje em dia, não é argumento válido, pois nesse caso estamos a falar de adultos e não adolescentes (o que até dou de barato). Refere ainda que o Estado pretende constituir uma “instituição marca branca”, o que desprestigia fortemente a instituição bicentária e profundamente elitista que é hoje o Colégio Militar.

O ministro da defesa Aguiar Branco, por outro lado, defende-se alegando tratar-se de um motivo de orgulho (de si próprio) que as mulheres passem a poder a estudar no Colégio Militar, e que a reforma está a ter resultados positivos, nomeadamente pelo aumento do número de inscrições no colégio.

Muito bem! Então e as mulheres? Será que as mulheres querem esta mistura? Devo confessar que me deslumbrei com os comentários que li de uma ex-aluna do Instituto de Odivelas, a Sra. Margarida Pereira-Muller. Na opinião de Margarida, as alunas querem ter acesso a um ensino diferenciado por género. Isso mesmo, querem ensino diferenciado. Mas não pense o leitor que as mesmas são sádicas ao ponto de gostarem de ser discriminadas, nada disso! Querem antes poder desenvolver-se (e passo a citar) "ao seu ritmo e não ao ritmo mais lento dos rapazes". Ora toma que já almoçaste!

Na minha singela opinião, e baseando-me na convicção de que o Estado tem essencialmente a obrigatoriedade da defesa da igualdade e não da manutenção de tradições/pensamentos, só porque sim, parece-me muito bem a criação de condições para que as mulheres possam no futuro ascender a altos cargos militares, parece-me muito bem a integração dos jovens (de ambos os sexos) na vida activa em comunidade, ao serviço da comunidade. 

Rapazes e raparigas têm ritmos diferentes, é certo! Mas num grupo de dez raparigas, por exemplo, têm todas um ritmo igual? Não! Nenhuma criança é igual à outra, nem mesmo os irmãos, quer sejam do mesmo sexo ou não! Por isso sempre fui contra a educação diferenciada por géneros. Caso contrário teríamos uma escola por criança! 

Estou convicta de que, tal como a polémica do aborto, do casamento homossexual, ou até mesmo o fim das touradas, no princípio o povo estranha, mas depois deixa-se convencer de que este é o caminho para o país civilizado, democrático e igualitário que os ideais de Abril nos ensinaram. O ensino é desenvolvimento e liberdade, não restrição ou afastamento.


segunda-feira, setembro 02, 2013

7 Coisas a Caminho de Casa



Por vezes preciso de voltar à bicicleta laranja que herdei da minha irmã, ao cheiro das roupas que iam passando de umas para as outras quando deixavam de nos servir, ao mano bébé que anunciei aos colegas no 1º dia de aulas, ao parque infantil que nos entretinha até à hora do jantar, ao tanque de lavar a roupa que me roubava a minha mãe, àquela janela onde ouvia o toque para as aulas, aos 40 km/hora do beco sem saída onde os putos se empurravam à vez nos carrinhos de esferas, aos campos de espiga no 1º dia de Primavera, às gargalhadas por tudo e por nada.
Saudades dos vizinhos de sorrisos largos e pequenas maledicências, saudades das preocupações serem moinhos de vento.



Porque o Metal não é só sombra



Era uma noite que se entitulava de “Sombra”, mas que sob o feitiço da lua se previa que brilhasse. Uma noite quente, sem réstia de brisa, como há muito Lisboa não presenciava. Tendo os jardins da Torre de Belém como palco e o Rio Tejo como pano de fundo, o espectáculo prometia o factor surpresa tanto para os habituais fãs como para os menos metaleiros. As versões acústicas de sons habitualmente agressivos dos Moonspell, a mistura de estilos e de artistas (Mestre António Chaínho e Madre Deus), a entrega ao choro lusitano e ao saudosismo lisboeta. Um espectáculo de encerramento das festas de Lisboa em jeito de despedida e um piscar de olhos ao público de todas as idades.

Ansiava por este concerto, mais do que pelos dois anteriores, pois já sabia o que me aguardava. Ou talvez não.

As músicas já conhecidas foram surgindo, mas com a entrada do Mestre António Chaínho, a teu lado, os meus ouvidos receberam pela primeira vez, ao vivo e a cores, o arrepio das cordas do mestre que tu humildemente acompanhavas, e nos meus olhos penetrava uma imagem que não sei se de filme se de sonho, pois já não era ali que estava.

A minha memória Polaroid levou-me àquele miúdo reservado que durante as aulas invadia a minha carteira com bilhetinhos, com quem fazia gazeta às aulas de ginástica ficando nos colchões do ginásio a partilhar aventuras e desventuras, enquanto lá fora os outros jogavam voley ou corriam à volta do campo. O mesmo miúdo que não fazia a mínima ideia do que fazer no final do 12º ano, e que não aparentava a mínima intenção de se candidatar a qualquer tipo de faculdade enquanto nós, os “certinhos”, andávamos atarefadíssimos atrás da média necessária para entrar neste ou naquele curso, demasiado preocupados com as décimas e centésimas e milésimas que nos pudessem comprometer o futuro. Num qualquer rasgo de clarividência, cliquei no “pause” de toda aquela correria, fixei-te de longe ao balcão do “Borges” e pensei “este puto ainda vai longe, mais longe do que qualquer um de nós”. Todos achávamos que sabíamos perfeitamente o que queríamos e para onde íamos, tu eras o único que parecia perdido, sem norte, sem futuro, e talvez por isso desejava o teu sucesso, mais do que a qualquer outro.

Perdi-te o rasto, nem sei bem porquê.
Vinte anos depois vim a saber, num daqueles jantares de antigos alunos patrocinado pelos encontros das novas tecnologias, que andavas em digressão, e que recentemente tinhas pisado o palco do Rock in Rio. Vi o concerto na íntegra, em directo na televisão e não te reconheci. Como poderia eu saber? Aquela longa cabeleira não existia há 20 anos atrás e impossibilitava-me de reencontrar aquele sinal no rosto que eu tanto gostava e que te distinguia dos demais.

Agora, neste cenário magnífico à beira rio, num misto de estilos e sons, esta imagem daquele menino ao lado do grande mestre da guitarra portuguesa, enche-me o coração de orgulho e surge-me a epifania: “eu sabia que tu ias conseguir”.

Conheço-te o suficiente para saber que não dás asas ao protagonismo, que és demasiado reservado para te considerares uma estrela, mas para mim foste a estrela que brilhou mais forte, nessa noite e não só. Quantos de nós daquela turma de secundário têm o prazer de fazer aquilo que gostam, sendo que aquilo que fazes é o sonho de qualquer adolescente? Quantos têm o prazer de percorrer os palcos do mundo, de encantar multidões e sentir a euforia dos fãs num tão aguardado concerto?  Quantos de nós têm o seu nome na lista dos “21 melhores guitarristas do mundo”? Quantos sabem o que se sente quando te pedem um autógrafo ou só mais uma fotografia? Para ti é um exagero, porque não te reconheces nesse vedetismo, mas só o facto de haver alguém, um único desconhecido (sim, porque amigos e familiares não contam) que te admira e reconhece o teu trabalho a esse ponto, só isso já é um grande feito.

Sei que o caminho foi longo e sinuoso, e que a procissão ainda vai no adro. Sei que por vezes as ausências prolongadas e o afastamento necessário daqueles que amas te enchem de saudades que tanto te esforças para enganar. Sei que a vida de músico/artista não é um mar de rosas, aliás, a haver flores na tua história só podiam ser Scorpion Flowers. Mas assim ainda tem mais valor.

Tive a felicidade, para não dizer uma sorte do catano, de ter sido tua colega, tua amiga, tua confidente, e tenho hoje em dia o enorme privilégio de te reencontrar carregadinho de luz! Porque o Metal não é só Sombra.


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sexta-feira, agosto 30, 2013

O Perdão e a Física Quântica



As relações humanas são sem dúvida a coisa mais complexa do mundo. Pior que física quântica!

Aproximamo-nos e afastamo-nos de alguém, muitas vezes sem saber o porquê. Por vezes existe afastamento voluntário quando alguém nos magoa, doutras vezes é inconsciente e quando damos por isso já não é a mesma coisa.

Porque nós mudámos? Porque o outro mudou? Porque ambos somos os mesmos, mas interveio inesperadamente uma terceira pessoa que envenenou a relação? Porque as circunstâncias mudaram? Porque mudou o círculo de amigos? Porque já não olhamos para a pessoa com os mesmos olhos? Existem “infinitos mil” de razões.

Por vezes continuamos a amar a pessoa, à nossa maneira, mas já nada será como dantes. E não me refiro simplesmente às relações entre casais, mas a todas as relações de amor em qualquer dos formatos ou cores com que somos presenteados durante esta nossa caminhada. Somos marionetas de uma peça de teatro maior do que a nossa vida, porque penetrante na vida dos outros e impossível de se circunscrever ao nosso princípio, meio e fim. O que hoje é,  amanhã já não é. E curiosamente o maldito tempo não perdoa, mas segundo dizem, tudo cura. Dizem.....  

Quem não conhece a angústia raivosa de ter de deixar de falar a alguém que um dia entitulámos de “melhor amigo” ? 

 Há quem diga que não está nem aí, que essa pessoa faz falta como a fome. Mas será assim tão fácil?

Confesso que preciso de uma força estóica, algumas horas de solidão, uns quantos cigarros e muito anos decorridos para esquecer quem já gostei, mesmo quando esse alguém me desilude em grande. Gostaria de ter esse controlo e não permitir que quem fez parte da minha vida, deixe de fazer.

Um rewind de vez em quando para mudar o final de uma amizade mal acabada permitia com certeza que fizéssemos as coisas de outra forma. Situações que nos aparecem aos 15 anos não as resolveríamos com a mesma inocência ou leviandade se fossemos confrontados com elas apenas aos 30 ou aos 50. Haveria maturidade para aceitar uns quantos pedidos de desculpa e para fazer outros tantos. Ou talvez não!

 Naquele programa do Daniel Oliveira, na parte do “deve um pedido de desculpas a alguém?” ou “alguém lhe deve um pedido de desculpas?” estou convicta de que ninguém poderá responder sinceramente a ambas perguntas com um simples NÃO. Não me lixem, ninguém é assim tão perfeito. Até Cristo, que alegadamente nunca pecou, precisou de pedir perdão. Pode é já não haver vontade de reatar a amizade (até porque dá muito trabalho) e acabar por se preferir abdicar dessa pessoa do que engolir o orgulho e tentar resolver as coisas a bem.

E assumo desde já a minha quota-parte de culpa. Também já tive a incapacidade de voltar atrás e tentar resolver as coisas de outra forma, também já bati com a porta e excluí definitivamente da minha vida pessoas que faziam parte do meu mundo mais primitivo e intrínseco!

Mas fica-me sempre um sabor agridoce! Circunda-me o cérebro, e por vezes inunda-me o coração em forma de remorso, aquela ideia de que poderia ter havido outro desfecho que não a ruptura definitiva, abrupta e involuntária. E isso irrita-me profundamente!

Tal qual uma crise hemorroidária que aparece sem como nem porquê e nos dói que se farta, para depois desaparecer por uns tempos, deixar de se sentir e de doer, mas que vai na volta torna a aparecer e nós pensamos “mau, já cá estás outra vez? O que foi que eu fiz agora?”. Tal como a chata e dolorosa hemorróida, o remorso está sempre lá, vive sempre connosco, só deixa de doer por uns tempos, mais nada.

 Pior ainda, quando a crise está no seu apogeu, convenço-me de que um dia tudo se há-de resolver. É quando entra o meu lado mais cinéfilo e acabo a sonhar com um happy-ending ao bom estilo americano:
- “Sai um comovente pedido de desculpas e um “foram amigos para sempre” para a menina baixinha e roliça ali do canto, ó faxavor!”
Aí fico irritada ao ponto de me apetecer dar um estalo a mim mesma,  ou de olhar para o espelho e dizer para o meu alter-ego-pseudo-racional “És mesma parva! Borrifa-te nisso pá, o que não falta pr’ai é gente que te estima e merece a tua atenção”. Mas a filha da mãe da hemorróida, vai na volta e está cá outra vez! Dasse....
É ou não é pior que física quântica?

quinta-feira, agosto 29, 2013

A Limonada da Vida



Cubos de gelo até cima, pretende-se bem geladinha. Bastam dois limões e uma pitada de açúcar para desfrutar de um momento de frescura. Música ambiente, pode ser Sade no volume certo, pés para cima e olhos fechados. 

As passas não deviam ser só 12. Devíamos ter no mínimo uma de sobra para pedirmos coisas que nunca nos lembramos de pedir em véspera de ano novo, coisas que não se apalpam. Há lá coisa melhor, arrepio na espinha! Que boa que está esta limonada! 

Devia fazer disto mais vezes, devia quebrar mais vezes com a rotina, saborear mais limonadas, respirar mais músicas, trocar de emprego, pegar na mochila e dar volta de onde ia a pé para a escola, até ao fim do mundo. 

Há sempre uma repreensão social quando alguém faz o que lhe dá na real gana. Faz sentido que vivamos a vida dos outros ou a nossa?  - "Não faças isso! Olha que dás cabo da tua vida. Já pensaste no desgosto que darás aos teus pais? Olha que vais ser falada! É mesmo isso que queres fazer da tua vida?"

 Eu sei lá o que quero para a minha vida, mas tenho uma explosão de harmonia e ainda nem sequer entraram os violinos. Tenho de pensar nisso já? Tenho 37 anos, bolas! Tenho uma vontade que ultrapassa os limites da racionalidade! Ganas de viver!

Não me apetece decidir já o que quero ser pró resto da minha vida. Olha, pensando bem não quero ser nada! Quero estar, comer com os olhos, respirar com o coração, sentir com a boca, absorver o que o mundo tem para me dar. Quero ser eu e o outro, num mundo virado às avessas, a limonada da vida e um local afável, acolhedor e familiar.

Compreendem o quanto isto faz sentido? Faz pois! Toda a comida precisa de uma pitada de sal, toda a vida precisa de um toque de limonda, de refreshment, de começar tudo do nada, sem necessariamente ir onde as nuvens dançam sem que as cobras se mantenham no deserto

Bem sei, pareço louca! Caso para internamento urgente, um verdadeiro case study. O que diria Freud acerca disto? Sem me querer gabar, arriscaria dizer que certamente seria um bom exemplo para uma qualquer das teorias freudianas. Estarei sempre pronta para me levar a qualquer parte do mundo, as passas não deviam ser só 12, mais a explosão de harmonia e ainda nem sequer entraram os violinos

A vida só termina quando acabar, até lá tudo é limonada!