sexta-feira, outubro 31, 2014

O senhor, com todo o respeito, é uma besta!

Ainda não estou em mim depois do artigo que li esta manhã, por isso vou ali respirar fundo e já volto.  Não vou nada, vai mesmo assim de rajada!

Senhor José António Saraiva, director do Semanário Sol, o senhor não me vai ler, mas seja como for aqui vai.

Na sua opinião, o facto de as mulheres terem começado a trabalhar perturbou o equilíbrio de toda uma sociedade matriarcal: os divórcios multiplicam-se, os jovens já não se casam, temos filhos de mães e pais diferentes e crianças infelizes, e daqui até ao consumo de drogas e ao suicídio é um pulinho.

O senhor, com todo o respeito, é uma besta! Mas não o digo de ânimo leve, explico porquê!

Passo a citar o seu artigo:
" as mulheres chegam a casa estafadas ao fim do dia de trabalho, não tendo paciência para os filhos nem para fazer nada. Muitos maridos protestam- e elas reclamam com eles por não ajudarem. Só que os homens resistem, pois nunca viram os seus pais dividir as tarefas caseiras. O mal-estar no casal instala-se".

"as mulheres preocupam-se mais com as carreiras do que com a família"

"as mulheres conversam mais tempo com alguns colegas do que com os maridos"

"A casa fica vazia o dia inteiro". Estava a pensar comprar um cão para lhe fazer companhia, mas o mais certo era ser mais uma tarefa a somar às centenas das quais me ocupo.

"as tarefas ficam por fazer". Só se for na sua casa, porque na minha não ficam.

Todas as manhãs sou a primeira a acordar, preparo pequenos-almoços e lanches para a escola, tiro a loiça do jantar da máquina e arrumo a suja do pequeno almoço, tiro do congelador o que destino para o jantar, faço a cama (os miúdos fazem as deles), arranjo-me para sair e vou trabalhar.

À tarde vou buscar a filha à escola, levo-a às actividades e volto para o trabalho (felizmente tenho um que me permite fazê-lo), e tento chegar a casa a tempo de fazer o jantar.

Normalmente é um dos miúdos a pôr a mesa, a não ser que tenham muito para estudar. Não faço intenções de criar miúdos habituados a que sejam as mães ou as empregadas a fazer-lhes tudo!

Janto com a minha família, arrumo a cozinha (aliás, arrumamos todos, cada um trata do seu prato), vejo se há roupa para lavar, estendo e/ou apanho roupa do estendal enquanto a criançada prepara a suas roupas e mochilas para o dia seguinte.

Deito os miúdos e começo a planear o dia de amanhã. Quando me deito tento ler um pouco, mas o cansaço nem sempre permite.

Sempre que posso estudo com os miúdos, sem bem que os professores pedem para que os deixemos estudar sozinhos.

As compras no supermercado são responsabilidade do pai. Tento que os meus filhos vejam os pais a dividir tarefas, para que o ciclo (a desculpa referida por si) não se repita.

Não deixo a minha família para último lugar, nem perco tempo com conversas infrutíferas. Gosto do meu trabalho e de ter uma ocupação que não seja só passar a ferro e mudar fraldas. Gosto sobretudo da minha independência financeira, de ganhar para mim, de não precisar do marido para comprar um par de cuecas.

Há tempo para tudo. Basta querer, basta que toda a familia queira! E para isso é preciso educar a família. Dá trabalho, mas vale a pena.

O problema não está no facto de as mulheres terem abandonado as tarefas domésticas, o problema reside no facto de os homens não se terem apercebido que essas mesmas tarefas são de ambos. O facto de as mulheres saírem para trabalhar, implica que os homens têm de colaborar mais em casa. E foi isso que vocês ainda não atingiram, ou preferem não atingir (por vezes gostam de se fazer de parvos. Dá um jeito danado!)

Não queremos ser homens, digníssimo senhor, nem ser tratadas como tal. Podemos e devemos contribuir para o crescimento da nossa economia, contribuir para o futuro do nosso país e do mundo, pois temos inteligência e capacidades para tal. E não é a ficar em casa que isso vai acontecer.

Há uns meses atrás fui à China em trabalho. Os meus filhos ficaram bem entregues e orgulhosos da aventura da mãe. Não viraram delinquentes pelo facto de, por uns dias, eu não estar lá para os deitar. Pelo contrário, tiveram o exemplo de que quando nos surge uma oportunidade devemos aproveitá-la, quando nos surge um desafio há que aceitá-lo de braços abertos.

Não tenho a mais pequena dúvida de que contribuí muito mais para a educação, personalidade e carácter dos meus filhos pelo simples facto de ter ido, do que ficando em casa a verificar se fizeram os TPC.

No final, dando uma de psicologia barata, o senhor ainda nos pergunta se somos felizes. Da minha parte digo-lhe sem medos: Sou sim, obrigada! "Duplamente explorada", mas feliz e realizada.

No auge dos seus 65/6 anos, sugiro que se reforme e vá para casa. Sabe, os avós podem ter (se quiserem) um papel fundamental nestas "novas famílias", e contribuir amplamente para a harmonia que o senhor pretende. Acho que é lá que o senhor está a fazer falta. O Semanário Sol e o país tinham muito a ganhar com essa sua decisão!

(Para quem se quiser dar ao trabalho de ler Link para o artigo mencionado)






6 comentários:

  1. Concordo e subscrevo!
    A minha mãe sempre foi Mulher, Mãe, Esposa e uma Mulher com carreira e eu não sou delinquente nenhuma. Acho que quem escreveu o artigo confundiu uma Mulher com uma criada para todo o serviço e às ordens do marido e filhos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário, Nina. Quem escreveu o artigo é director de um dos principais meios de comunicação do país. É grave...

      Eliminar
  2. Amei o texto!
    E todos os homens deviam ler.
    Somos sem dúvida... umas super mulheres!
    Parabéns!

    ResponderEliminar
  3. A mulher é sem dúvida um simbolo de força e garra


    www.tarasemanias.pt

    ResponderEliminar
  4. Eu queria ver se ele conseguia ser tão flexivel..realmente é por causa destas mentes que a nossa sociedade está como está...
    Gostei muito da forma como te exprimiste..vou seguir o blog ;)
    beijinho
    http://mypreciouspace.blogspot.pt

    ResponderEliminar
  5. O que preocupa este senhor não é o equilíbrio da sociedade, nem o futuro das novas gerações. O que preocupa este senhor é que as mulheres tenham deixado de existir para servir os homens. Hoje em dia não há "papeis definidos", cada um faz o que quer, casa se quiser, ou não casa, porque não vem mal nenhum ao Mundo por isso. E dividem-se tarefas, porque ninguém é escravo de ninguém se se concorda em constituir família com alguém, andam os dois ao mesmo. Fico possessa com este tipo de mentalidade. Tens razão, este senhor já se reformava, mas infelizmente, nem para avô deve servir, aposto que pensa que isso é trabalho de mulher.

    ResponderEliminar

Diz o que te vai na alma