quinta-feira, abril 30, 2015

Maria Capaz para o Futuro


"Nas suas dissertações acerca da actual crise financeira e económica, o jurista Medina Carreira não se tem poupado a críticas a este governo, bem como ao anterior, alegando que "qualquer dona de casa teria feito melhor".

Esta semana voltou a repeti-lo em declarações à TVI no programa Olhos nos Olhos, nestes termos: "uma dona-de-casa não tinha consentido que nós falíssemos. Acredito muito mais nas mulheres, sabe, as mulheres não têm golpes, não são politiqueiras, enfim...têm outro sentido de responsabilidade".

Apesar da minha formação em Letras, como mãe, empresária e igualmente dona-de-casa, depressa me imaginei a candidatar-me às próximas legislativas, apelando ao voto deste e de outros Medinas neste país. Podia certamente continuar a divagar sobre o quanto somos multi-facetadas, e que este país estaria muito melhor se governado por mulheres. No entanto, reflectindo sobre o significado verdadeiro das palavras proferidas, cedo nos apercebemos do paternalismo dos elogios, da convicção salazarista e do papel redutor da mulher, e há verdades que têm de ser ditas.

A competência, a inteligência ou a capacidade de trabalho, seja ela para a economia doméstica, para a governação de um país, ou para qualquer outra coisa, não se mede em género.

Com toda a certeza alguns indivíduos têm maior facilidade para certas artes do que outros, mas nunca podemos cometer o erro de traçar essas dicotomias baseando-nos nas idiossincrasias do homem e da mulher.

Para além disso, o gene da maldade, que eu tenha conhecimento, não foi distribuído apenas pelos cromossomas masculinos. Infelizmente conheço algumas mulheres politiqueiras, manipuladoras, traiçoeiras, verdadeiras vilãs de novela. Até nisto vejo equilíbrio nos géneros.

Sou mãe de uma adolescente de 14 anos que, entre outras coisas, toca guitarra, joga ténis, gosta de ler e escrever, viajar, fotografar. Durante toda a sua existência, sempre lhe transmiti que não há nada que um rapaz da sua idade faça que ela não possa fazer. Para o seu futuro, pouco tenho definido a não ser isto. Apenas isto!

Não faço questão que seja dona de casa, que case e tenha filhos, não faço questão que seja empresária, médica, hospedeira ou primeira-ministra. Tudo o que desejo é criar uma Maria Capaz em causa própria, íntegra nos seus princípios, coerente nas suas convicções e que tenha a coragem de cumprir o seu desígnio sem dever nada a ninguém, mas com respeito pelos outros. Quero que tenha experiências, sonhos, paixões e que isso a ajude a desenhar o seu caminho, construído de coração.

Quaisquer frustrações hão-de ser as suas, sem atribuições de culpa a outro alguém. Quaisquer vitórias a ela pertencem, sem mérito de mais ninguém. 

Espero que o seu futuro contemple escolhas e portas abertas, sem quaisquer restrições de género, raça ou religião.
Espero que, ainda durante a existência da minha filha, este país não me defraude e me dê razões para continuar a ser esta mãe."


Publicado no site mariacapaz.pt em 17/04/2015
http://capazes.pt/cronicas/maria-capaz-para-o-futuro-por-susana-esteves/view-all/






7 comentários:

  1. Adorei o texto. Também sou mulher, mãe, profissional...mas não me imagino a concorrer às próximas eleições.

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  2. Só tenho pena porque acho que isso não vai acontecer na próxima geração nem na seguinte, Ainda somos um povo com uma mentalidade demasiado machista.

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    1. Pode ser que sim... temos de ir fazendo por isso!

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  3. Respostas
    1. :-) Como tu dizes: Não aceitamos nada abaixo de super-mulheres!

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  4. Muito bom :) Aposto que estás a fazer um bom trabalho

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