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quinta-feira, março 07, 2019

Dia de Luto Nacional pelas Vítimas da Violência Doméstica

Hoje assinala-se o 1º Dia de Luto Nacional pelas Vítimas da Violência Doméstica, em homenagem às vítimas, que este ano já foram 12 (mortais) e ainda só estamos em Março.

Um dia após o afastamento/transferência do juíz Neto de Moura para o tríbunal cível por forma a não julgar mais casos de violência doméstica.

A culpa é sempre de quem agride, diz o povo. No entanto, a justiça portuguesa (nomeadamente as sentenças deste juíz em particular) tem agido de outra forma, desculpando o agressor com os deslizes da vítima aqui e acolá, como se merecesse o tratamento que recebeu.

Quando a imparcialidade não impera nas decisões de um juíz, mas sim as suas convicções, os seus juízos de valor e crenças religiosas, é bom que ele seja afastado e impedido de voltar a cometer os mesmos erros, ainda que com o "empurrão" das tão malfadadas e impudicas redes sociais.

Mas sabe a pouco, este afastamento.

As sentenças proferidas por Neto de Moura trouxeram consequências intransponíveis na vida destas vítimas, pelo que o facto de ser transferido para o cível deveria ser apenas o início do fim desta vergonha.

É imperativo que seja instaurado um processo disciplinar e se avaliem as capacidades deste senhor permanecer sequer a exercer as funções de juíz, sejam em que matéria for. É imperativo que se faça o trabalho até ao fim, que as entidades competentes analisem, avaliem e decidam, com o máximo de imparcialidade possível, o futuro deste senhor. É um direito de justiça que lhe assiste, apesar de não o ter praticado em todos os momentos do exercício das suas funções.

Que tenha direito a maior imparcialidade do que aquela que ele ofereceu às vítimas dos casos de violência doméstica que julgou. Só não deixem o assunto morrer na praia, porque esta transferência sabe a pouco, a muito pouco.

Não fiquemos por aqui. Não deixemos que Neto de Moura seja o único responsável pela falta de punição dos agressores e falha na protecção das vítimas. 

Obriguemos à mudança não só de cargos, mas de leis e de maneiras de pensar.  Para que a violência doméstica termine, em vez de se propagar da forma a que se tem assistido nos últimos anos.


#limonadadavida #netodemoura #babysteps








terça-feira, outubro 24, 2017

Não em nosso nome!


Argumentação do juíz Neto de Moura para atenuar a pena aplicada ao arguido que agrediu a mulher, juntamente com o ex-amante da mesma, com uma moca de pregos:


“O adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.”

“Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal [de 1886] punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando a sua mulher em adultério, nesse acto a matasse”


Porque há alarvidades que não podem ser permitidas na justiça, apelo a todos os Limoneiros e Limoneiras que se sentem chocados com a argumentação proferida pelo juiz Neto de Moura, a assinar esta petição.
Por uma questão de respeito por todas as mulheres portuguesas, e porque a nossa justiça não pode ser representada por juízes deste perfil.
#naoemnossonome #limonadadavida

link para assinatura da petição:

segunda-feira, outubro 23, 2017

A culpa é sempre de quem agride

O discurso do Juiz Neto de Moura no caso de violência doméstica, em que a vítima foi agredida pelo ex-marido e pelo homem com quem tinha mantido uma relação extraconjugal, discurso no qual “a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher” é vista “com alguma compreensão”, em muito me lembra o tipo de julgamentos que corriqueiramente se ouvem acerca de mulheres violadas.
Frases que são ditas levianamente, e que de certa forma "desculpam" o agressor das suas atitudes. Frases como as escritas em baixo.
Mesmo quando vítimas, as mulheres têm sempre uma pontinha de culpa, e isso é vergonhoso!
No caso do Juíz Neto de Moura , o que ele quer dizer com a decisão proferida é "se ela traiu o marido, esperava o quê?"
Não é só este Juíz que é um idiota, são todos os que nos rodeiam e que têm este tipo de discurso.
Quem julga assim contribui para a cultura do abuso, da violência, da violação.

A culpa é sempre do abusador, de quem agride, de quem viola, de quem estupra.


sábado, janeiro 23, 2016

Isso é para ela saber o caminho para casa!

Ontem foi dia de volta quinzenal pelas pessoas sem-abrigo com a Comunidade Vida e Paz.

Normalmente esses sem-abrigo são pessoas nossas conhecidas. Sabemos os seus nomes e onde costumam estar, assim como eles sabem quem somos e o nosso propósito.

Ontem, demos com um casal que ainda não nos tinha aparecido, o João e a Maria.

O João e a Maria são um casal cigano jovem, cerca de 30 anos. Aproximaram-se da traseira da nossa carrinha num dos nossos pontos de paragem junto às Avenidas Novas. Eu entrego o habitual saco de comida e sirvo-lhe um copo de leite. Ele pergunta-me: "tem roupa de senhora? É aqui para ela que precisa de roupa". Digo-lhe para perguntar na parte da frente da carrinha, junto das outras voluntárias que estão a distribuir roupa.

Olho para a Maria, atrás do seu João. Segue-o com um ar envergonhado e de braços encolhidos.  Não sei se de frio, se de vergonha,  se ambos.

Uma das nossas voluntárias é assistente social e, muito por culpa da sua experiência profissional, mete conversa, faz perguntas, pergunta-lhes se são ciganos, brinca com eles imitando o seu sotaque, cria um clima de relativo à-vontade que permita ao João e à Maria partilhar connosco um pouco da sua história.

João , mais extrovertido e falador, diz-nos que não têm documentos, pois foram assaltados e tudo o que tinham estava na mala de Maria.

Maria não fala. Mesmo quando lhe fazemos perguntas directas, ela responde "ele é que sabe dessas coisas". Posicionada sempre atrás de João, retraída, cabeça para baixo, vergonha em falar, braços dobrados sobre a barriga, encolhida.

A certa altura a voluntária  pergunta directamente "então e essa nódoa negra aí no pescoço, Maria? Foi alguma brincadeira?"

Maria arranca os olhos do chão, leva a mão ao pescoço, olha para João e lança um sorriso embaraçado.

João fala por ela e faz questão de sublinhar: " isso é para ela saber o caminho para casa, agora já sabe!" Assim, sem medos, sem meias-medidas, sem gota de arrependimento! Ali não mora a culpa.

Deu-me vontade de lhe dizer "mas qual casa, se tu moras na rua, meu bandalho?"

Fiz das tripas coração para não lhe dar uma murraça, fiz das tripas coração para não lhe pedir de volta o saco de comida que há minutos lhe tinha dado e para não o obrigar a vomitar o copo de leite que lhe servi.

Por momentos pensei para os meus botões: "Não foi para isto que eu saí de casa!

Normalmente no fim da volta, chego a casa de coração cheio, com a certeza de que ajudei quem mais precisa, quem está no limiar da pobreza. Apesar de cansada, apesar de ter largado a minha família e o conforto do meu lar para ir ajudar estranhos, chego a casa feliz.

Ontem cheguei a casa com a sensação de impotência e com a certeza de que nem todos merecem a nossa ajuda! Por momentos, lembrei-me "E ainda falam nos refugiados oportunistas".

Para quem, na questão dos refugiados, argumenta que temos de cuidar primeiro dos nossos, eu respondo que preferia mil vezes que aquele saco de comida e copo de leite tivessem ido parar ao estômago de um sírio que deu tudo o que tinha e correu risco de vida para arrancar a sua família da violência da guerra, do que a este ignorante miserável que se sente gente quando agride a mulher alegadamente para a meter no sítio.

Mas quem sou eu para definir quem merece ou não merece?


segunda-feira, julho 27, 2015

Apenas mais uma tarde de praia ou uma vida de inferno?

Supostamente a praia é um local agradável para bronzear, ir a banhos, ler, relaxar... ou talvez não!

Uma tarde de praia também pode tornar-se num inferno!

É ligeiramente irritante estar a passar pelas brasas, e acordar com o choro de um bébé. No entanto, sendo mãe, conheço a sensação de querer acalmar o nosso bébé e quanto mais lhe mexemos mais ele berra. Conheço a vergonhazinha de estarmos a incomodar o sossego dos que nos rodeiam.

O que me perturbou não foi propriamente o choro da criança, mas a discussão dos pais (ou melhor dizendo do pai para a mãe) que se incendiou misturada com o choro:
- tás parva? Então eu fui lavar o miúdo e tu vais metê-lo na areia outra vez, sua anormal?
- fui lavar o miúdo para quê, estúpida de merda? 

Não, não era eu armada em cusca. Era perfeitamente audível para quem estivesse ali perto. Não a voz dela, só os gritos histéricos dele e a choradeira do menino. E ele continuava, mortificava, crucificava vezes sem conta:
- para falares da minha mãe lava bem a boca primeiro!
- És mesmo parva, fui eu lavar o miúdo!

Pegou na criança e tentava mudar-lhe a fralda dizendo:
- é uma estúpida, fui eu lavar-te para nada. Já estragou o fim-de-semana, a estúpida!
- Dá aí uma fralda! Mete o miúdo direito para eu lhe meter a fralda.

A criança permanecia num choro sufocante, enquanto ele grunhia:
- Grrr, caralho! Mas por que é que ele não se cala? A última vez que veio à praia não fez nada disto, caralho!

Não conseguia parar de pensar: se este era o cenário em público, como seria a vida deste casal dentro de quatro paredes?

Perdi a vontade de estar na praia, e a revolta era tanta que só me apetecia afastar a criança daquela cacofonia infernal.

Para além disso, a passividade daquela mulher perturbou-me, enquanto mulher e enquanto mãe que sujeita o filho a este ambiente. Por um lado, compreendo que se tivesse remetido ao silêncio para evitar mais confusão em público. Por outro lado, pareceu-me que ela não tinha efectivamente capacidade de resposta, e que aquilo já era habitual.

Tive vontade de me aproximar daquela mulher e dizer-lhe que ela não tem de aguentar este tipo de tratamento. Que isto não é vida, que isto não é amor. Mas para quê? O mais certo seria dizer-me para me meter na minha vida. O mais certo seria dizer-me que ele não é assim, que até tem dias em que é meigo, que é bom pai, que ao menos não bebe, que não deixa faltar nada em casa, e apresentar-me uma panóplia de desculpas mais ou menos válidas para aquele filme. O mais certo é terem saído dali e ela ter fingido o resto da tarde que nada se passou...e continuar a fingir para o resto da sua vida.

Recentemente, uma pessoa minha conhecida perdeu a vida na luta contra o cancro (mais uma). Vi o marido dessa senhora despedir-se dela no caixão enchendo-a de beijos: na testa, no nariz, nos lábios. Das suas vidas em comum, trabalhando inclusivamente juntos no negócio de família, resultaram duas carinhosas filhas e três netos.  Apesar da partida prematura desta mulher cheia de energia e vontade de viver, alegra-me saber que levou uma vida de amor, cumplicidade, respeito e companheirismo. Tudo o que seja abaixo disto é muito pouco, ou nada!










quinta-feira, abril 30, 2015

Menina de 12 anos que foste violada

Menina de 12 anos que foste violada pelo teu padrasto:

Li agora nas notícias que vais poder abortar.

Não te conheço, não sei por onde andaste nesta vida, quem te fez bem ou mal, que tipo de ambiente familiar era aquele em que vivias para consentir que o teu padrasto te fizesse as maldades que te fez.

Não sei como se encontra a tua mãe: se chocada e com raiva de não te ter conseguido ajudar, ou se indiferente ao teu sofrimento, pois sabia e nada fez.

Sei que há no mínimo um culpado, e esse, caso não haja justiça nesta terra, talvez outro Alguém se encarregue dele. Imagino que qualquer castigo que ele possa vir a sofrer não vai arrancar de ti as tuas mágoas, mas no mínimo alivia-te a alma não o ter por perto. Não precisas de ter mais medo, pois não voltará a fazer-te mal, nem a ti nem a mais ninguém.

Tens as leis, uma comissão de médicos e a tua mãe a traçarem-te o destino. Tens a imprensa, e uma catrefada de "opinadores" a argumentar o que deves ou não fazer com o ser que trazes dentro de ti, o qual não pediste nem planeaste.

Alguém te perguntou a ti o que queres? Como te sentes? Gostava de te ouvir, de saber o que te vai na alma.

És pequenina, eu sei, devias andar na escola a receber bilhetinhos de amor do colega de turma, a brincar nas aulas de ginástica, a ouvir música com os colegas no recreio, devias ir a festas de aniversário, concentrar-te nos teus estudos e a construir sonhos para o teu futuro.

Não devias estar aí, não devias estar a viver um dilema desta natureza, que poderá marcar-te para o resto da tua vida. Mas estás, por isso quero ouvir-te. Usaram o teu corpo para além dos limites que desejaste, usa agora a tua voz para impores a tua vontade.

Apesar da tua tenra idade, da confusão, dos medos, dos traumas, gostava de te ouvir. Nem que fosse para me dizeres " não sei o que fazer, decidam por mim". Ainda assim terias sido ouvida, talvez pela primeira vez na vida.





sexta-feira, abril 17, 2015

É um dever!


Violência doméstica não é apenas a violência entre marido e mulher, mas toda e qualquer a violência vivida dentro do seio familiar: entre pais e filhos, irmãos, avós, etc. Não podemos de forma alguma esquecer que é um dever denunciar. 

Eis o testemunho de alguém que em criança assistia à violência praticada na mãe, e por consequência em si e em toda a família: Carrossel das Emoções

quarta-feira, maio 07, 2014

Isto é amor, e do bom!


Esta semana vi um filme, baseado em factos verídicos, sobre Jean Charles de Menezes, o brasileiro assassinado em 2005 no metro de Londres, pela polícia inglesa que o confundiu com um suspeito de terrorismo.

Uma das cenas do filme é um concerto em que o público brasileiro, imigrado em Londres, e carregadinho de saudades do seu país, está ao rubro à espera de Sidney Magal. 

Quem? Pois, eu também me perguntei o mesmo. Sidney é apresentado como um gigante das canções românticas brasileiras (tipo o Tony Carreira lá do sítio). Cantor romântico brasileiro, para mim, era o Roberto Carlos, mas enfim...

Pesquisando o Sr. Sidney Magal na net, deparo-me com isto . 





A letra é absolutamente incrível, senão vejamos:  

Se te agarro com outro
Te mato!
Te mando algumas flores
E depois escapo
Pumba! Assim, logo de entrada, à bruta, sem paninhos quentes. Isto, para quem não sabe, é homicídio premeditado. Se este homem tem o azar de lhe aparecer a namorada morta na casa-de-banho, não tem a mínima hipótese de dizer que estava a defender-se dos ladrões (ao contrário do Pistorius). É que ele repete-o umas dez vezes ao longo de toda a canção.

Dizem que sou violento
Mas a rocha dura
Se destrói com o vento
Essa agora! Violento? Quem é que pode dizer uma coisa dessas?

Dizem que é tempo perdido
Mas é só inveja
Porque estás comigo..
Fonix, com um amor assim até eu queria estar contigo, ó Sidney!

Dizem que eu estou errado
Mas quem fala isto
É quem nunca amou
Sim, porque isto é amor, e do bom! Se te cruzares com o padeiro, faz como o Palito, e diz-lhe que lhe deste um tiro pelas costas, mas que nunca foi tua intenção matá-la!

Dizem que eu passei da idade
Mas em ti encontro
Minha mocidade
Hum, cheira-me que arranjaste uma chavala vinte anos mais nova que tu…

Fico até aborrecido
Quando telefonas
Para os teus amigos

Bingo! Tu não tens é pedalada para ela. Por isso é melhor pôr os pontos nos i's logo de início, ameaça-a de morte que ao menos assim ela não pode dizer que não foi avisada, a fresca! 
Mas depois manda flores, ok? Não te esqueças…